Eu só me queria matar

Querido Diário,

As coisas aqui por Chaves já não são tão interessantes. Estou aqui há cerca de um mês e já não há nada de novo para descobrir. A Marta já não quer nada comigo e eu começo a sentir falta das palmadas dela. Bem tentei rasgar as cortinas do quarto dela, rasgar-lhe os apontamentos de Economia, roer-lhe os livros, riscar-lhe os DVDs que ela tanto estima, mas nada. Absolutamente nada a fez levantar a mão e bater-me. Então resolvi partir para outra solução.

Mais uma vez estive a tarde toda na cozinha. Não é mau de todo: estou rodeado de comida e posso dormir à vontade, mas resolvi mudar a rotina. Descobri a caixa dos comprimidos que está no armário, junto ao frigorífico. Não me perguntes como consegui, mas derrubei a caixa e espalhei os comprimidos no chão. Achei aquilo pouco dramático para uma cena de suicídio, então resolvi espalhar a água da minha tigela pelo chão da cozinha. Decorei também os tapetes com a ração, afastei o balde do lixo e atirei a minha cesta de dormir para um canto. Depois sentei-me ao lado dos comprimidos, à espera que a Marta viesse.

Por volta das 23h30 a Marta veio à cozinha. Estava com fome e vinha fazer uma sandes. Quando viu aquele cenário gritou muito alto o meu nome (assustou-me, confesso). Pegou no jornal e bateu-me no rabo com muita força. Apanhou os comprimidos e guardou-os. Depois fez-me estar ao pé dela enquanto limpava o chão com a esfregona. Não percebi por quê! Eu bem sei como o sujei! Depois voltou a bater-me! Agarrou-me com força pelo pescoço (miei muito porque desta vez aleijou-me bem!). Depois, enquanto ela fazia a sandes, resolvi vingar-me pela cena do pescoço, então saltei para as pernas dela e mordi-a. Escusado será dizer que voltei a levar no rabo.

Agora estou de castigo na marquise. Está frio e não há nada aqui que eu possa estragar. Pensando bem, tenho aqui a caixa das necessidades. Já falamos diário, vou decorar o espaço com a minha arte abstracta...


Jimmy (rebelde!) da Cat

Hoje fui ao campo!

Querido Diário,

Hoje fui, pela primeira vez na minha vida, a uma aldeia. Acho que foi uma boa maneira de iniciar este novo ano!
A Marta e a mãe foram visitar a D. Joaquina, a avó da Marta, e levaram-me com elas. A viagem foi um bocado longa, mas não enjoei com as curvas! Quando chegámos, a avó da Marta pegou logo em mim e disse-me que eu era ainda mais bonito do que aquilo que pensava (como se eu não soubesse que sou um gato charmoso!), mas nem com este elogio ela me convenceu: saltei do seu colo e corri para trás de uns vasos, na esperança de que ninguém me visse. A Marta começou a rir-se e levou-me para dentro de casa (estava ainda mais frio do que em Chaves!).

A casa da D. Joaquina é muito estranha: as maçanetas estão ao contrário (em vez de estarem por cima da fechadura, estão por baixo), está muito frio, a casa faz sons estranhos, e há na cozinha uma lareira enorme com um fogo muito forte. Confesso que tive um bocado de medo. Parecia que estava numa casa assombrada de um daqueles filmes de terror. 

A Marta arranjou-me uma caixa para pôr a areia e deu-me leite para beber. No início fiz-me de difícil. Não quis estar a abusar da confiança e então sentei-me numa cadeira muito pequena a apreciar o cenário. Entretanto chegou a prima da Marta, a Filipa, com uma miúda pequena. Se a casa estava assombrada era por causa daquela diabrete de palmo e meio! Agarrou-me muito e puxou-me o rabo muitas vezes. Senti vontade de lhe cravar os meus belos dentes naquelas mãos, mas consegui resistir à tentação.





A tarde foi passando e eu comecei a sentir-me mais à vontade. Bebi o meu leite, explorei a casa, estive no colo da D. Joaquina e ainda tive tempo para me apreciar no espelho do fogão. Tivemos visitas em casa e todas elas ficaram encantadas comigo. Não é para me gabar, mas acho que esta estadia pelo Norte me deixou ainda mais lindo.

Depois de jantarmos (comi um arroz de marisco mesmo bom) viemos para Chaves. Desta vez adormeci na viagem, por isso nem dei pelo passar do tempo.

Agora estou aqui com a Marta a ver o Ratatouille na televisão. O filme é mesmo engraçado. Acho que um dia me vou aventurar por esse mundo como o rato. A Marta está a dormir. Deitou-se às 7 da manhã e acordou ao meio dia, por isso está cheia de sono.

Bem diário, vou desligar o computador e continuar a ver o filme.
Até à próxima!

PS. Hoje vi um burro pela primeira vez. A Marta diz que para a próxima me leva a ver as galinhas.

Jimmy (cada vez mais charmoso) da Cat

A minha primeira passagem de ano

Querido diário,

Pelos vistos já estamos em 2011. Eu não me apercebi muito disso porque ainda sou um tipo novinho e vivi apenas cinco meses de 2010 (mesmo assim não há grandes certezas).
Ontem houve festa cá em casa. Eramos poucos, mas fizemos a festa por muitos. Passei o dia sozinho, de castigo, porque no dia anterior tinha espalhado a minha areia pela marquise. A Mª Teresa não gostou da minha definição de arte abstracta então bateu-me no rabo e disse-me que estava de castigo.

A Marta e a mãe voltaram por volta das 22h. A Marta foi arranjar-se porque pelos vistos ia sair com os amigos e eu fiquei com a Maria Teresa. Estivemos a ver o Idolos e a cantar e a dançar. Eu estava eufórico! A sério diário! Trepava os sofás e corria para debaixo do armário, mas ninguém queria brincar comigo.

Enquanto a Marta tomava banho, a Mª Teresa cortou-me as unhas. Disse que era para me pôr bonito. Não percebi, eu já sou uma beleza!

Quando estávamos perto da meia noite, a Marta abriu um pacote de passas. Como a vi a ir lá mexer fui lá meter o meu nariz. Levei logo duas palmadas que me pus fino.

Depois resolveram meter-se em cima de cadeiras. Eu pensei que fosse algum ritual daqui de Chaves por isso também me sentei em cima de uma. Elas começaram a rir-se. Não percebi onde estava a piada, mas enfim.

Entretanto, o apresentador do Idolos começou a brindar e a desejar um bom ano. Pensámos que já tinha passado a meia noite então mudámos para a TVI (vês diário, sou inteligente e conheço os canais de TV). A Júlia estava aos berros a dizer que faltava pouco. Ficámos mais descansados.

Depois chegou o momento. Brindámos e abraçámo-nos (a Marta quase que me esmagou) e demos muitos beijinhos. Foi divertido.

Bem Diário, vou-me. Acho que vamos até casa da avó da Marta e eu devo ir também. Afinal de contas, já faço parte da família! (A Marta diz que eu sou o filho mais novo cá da casa)